19.5.06

um pequeno grande parênteses daqui à holanda pra dizer que adoro a minha tulipazinha holandesa

8.5.06

"A minha mãe olhou-me com um olhar de preocupada e bonita e perguntou-me o que é que aconteceu, filho? Com a vergonha do meu olhar escondido a ser resposta que só a minha mãe entendia, virou-se para a porta e mandou o senhor violinista ir para o quarto, e mandou a escrava miriam ir buscar-me leite com chocolate e torradas e biscoitos. Ficámos sozinhos. A cobrirem o chão da sala, os gatos dormiam. A minha mãe, sem precisar de me ouvir, disse não estejas triste, filho. Não desanimes. A minha mãe disse que gostava muito de mim. Aminha mãe pousou a mão sobre a minha. Sentir a sua mão nas costas da minha mão, o peso e o calor da sua mão, foi sentir que também eu gostava muito dela. Levantei a cabeça para olhar e, nesse momento, sentimos tanta vontade de nos abraçarmos, porque soubemos mesmo que éramos duas pessoas a ser a mesma pessoa, porque soubemos que a beleza do amor que sentíamos, o afecto, era sentido exactamente da mesma maneira, com as mesmas formas, pelo outro. A minha mãe e eu sentíamos a mesma coisa quando olhávamos a ser mãe e filho. E eu, como se descobrisse, senti toda a força infinita do amor que nunca muda, do amor que permanece igual depois de tantos anos e anos. A minha mãe fraca e bela, linda. A minha querida mãe que me pegava ao colo e que, naquele dia, já eu era um homem, já fazia a barba, e achava por isso que era um homem, já me apaixonava e padecia por mulheres, e achava por isso que era homem; a minha querida mãe, naquele dia, pousou a mão obre a minha mão, e eu olhei nos seus olhos lindos e castanhos, doces e tão belos de menina, e soube tão profundamente que o nosso amor era mais imutável do que as rochas, do que a montanha, do que o céu todos os dias, todos os dias, todos os dias até ao fim do último fim depois do fim da eternidade. E, só quando a escrava miriam entrou com o tabuleiro que trazia leite com chocolate e torradas e biscoitos, a minha mãe levantou a mão, como se levantasse uma pena. O peso da sua mão, levemente sobre a minha, como se ainda lá estivesse. A escrava miriam saiu. A minha mãe pousou-me o tabuleiro no colo. E bebi o leite morno a olhá-la, e comi as torradas a olhá-la, e comi os biscoitos a olhá-la. A chuva batia contra os vidros da janela e contra o dia cinzento. E quis ser sempre feliz como naquele instante. Sempre feliz, para nunca decepcionar a minha mãe. Sempre feliz, para a minha mãe ter sempre orgulho em mim."

in UMA CASA NA ESCURIDÃO, José Luís Peixoto

1.5.06

o braço lento puxou a cadeira escura e sentiu-a deslocar-se por entre as sombras da sala. lia-lhe os contornos apenas pelo leve brilho das arestas de madeira pintada a que cheirava o ar gasto que respirava. sentou o peso do corpo. os olhos tornaram-se humidos ao olharem perdidos para o nada. nao me lembro do mundo há horas. nao me lembro de ti há horas. Há horas em que morro um pouco mais depressa. Dormiu

23.4.06

fecho os olhos e anulo-me.
penso noutras pessoas e noutros lugares.
penso no calor dos raios de sol de fim de tarde, que lhes aquecem de um laranja aveludado os traços das suas faces calmas. penso nos toques. penso nos momentos em que se cruzaram e nos que se voltarão a cruzar. penso nos cheiros que os rodeiam trazidos pela brisa leve e fresca ao passar nos assobios das folhagens coloridas de primavera. penso no que pensarão e no que quererão dizer. sinto-os como se fosse eu. digo-os

22.4.06

deixaste que uma lágrima te acalmasse as curvas rosadas da face e sorriste como uma criança muito pequena.

tinha passado um mês desde a útlima vez que nos tinhamos encontrado.
trouxe o bule de chá e pousei-o no meio do chão da sala. os primeiros aromas traziam à lembrança estórias antigas que iamos partilhando a cada pousar de chávena. nada tinha mudado e foi bom.
os gestos eram os mesmos gestos que nos conhecíamos. os olhares eram os mesmos olhares que nos conhecíamos. abraçámo-nos nas palavras afectuosas da saudade e na felicidade do reencontro.
Palavreámos até tarde nessa noite

22.3.06

I lock the door and lock my head
And dream of butterflies instead


Porque há músicas que só ouvimos deitados de olhos fechados.
para voltar a acordar ao fim de algumas horas, uma vida inteira depois

13.3.06

regresso a mim nos fragmentos de outros que fui. Acalmo e recomeço.
respiro de novo o que me rodeia, arrumo o saco e recomeço.
ainda não sou eu, uma vez mais encho os pulmões e recomeço.
tento de novo. começo a fazer sentido outra vez.

às vezes gostava de ser mais assim, sem sonhos, sem desassossegos, morando todos os dias numa rotina superior a mim. mas quero ser coisas que nao tenho, quero ver coisas que nao vi, quero falar numa lingua que nao sei, quero saborear coisas das quais nem sei o nome. Todos somos um pouco egoístas.

25.2.06

tinha uma meia meia rota
pedi que ma cosessem
coseram-me a meia ao pé
e o pé à perna solta

tinha uma perna meia solta
pedi que ma juntassem
juntaram-me a perna ao tronco
e o tronco à cabeça louca

tinha uma cabeça meia louca
pedi que ma curassem
ataram-me a cabeça aos pés
e os pés às meias rotas

os buracos das duas meias
eram mesmo por entre os dedos
entravam o frio e o mau tempo
e gelavam-me as idéias

Fui comprar linha e dedal
a pé de perna junto ao tronco
cosi eu as duas meias
e tratei do meu próprio mal

16.2.06

menina triste de olhos secos
que nada mais podem chorar
quem te levou todas as lágrimas
e sorrisos de tanto gostar

29.1.06

Estas palavras são puramente introspectivas.
Não é minha intenção enviar mensagens ou recados.

24.1.06

desassossego porque vens sempre que espreito por mim
e procuras nas palavras de outros maneira tua de ser assim

escondo-me.

Arctic Monkeys


O melhor da brit pop ainda está pra vir. Tudo a (re)começar com estes senhores
O primeiro álbum está para sair, chama-se "Whatever People Say I Am, That's What I'm Not" e já está disponível por aí noutros locais menos legais

16.1.06

há coisas que me recuso a discutir. Por exemplo: a diferença entre homens e mulheres. São seres diferentes e cada um tem qualidades e defeitos. Em ambos os lados há seres humanos inteligentes que vale a pena conhecer e se alguém argumenta o contrario é porque ainda não teve essa felicidade.

14.1.06

Argumento Hollywoodesco



o nosso psiquiatra suicida-se imediatamente após a nossa hora de conversa.
Por peso na consciência, entramos numa viagem introspectiva por todas as nossas sessões e por toda a nossa vida. Vasculhamos a vida do psiquiatra, procuramos um elo de ligação entre a nossa e a dele, algo que explicasse o motivo. A procura torna-se obssessiva, há perseguições, partidas do nosso cérebro a nós próprios, realidades alternativas, tudo muito ao estilo vanilla sky, com côres e horizontes distorcidos em tons de sépia.


imagem_ House of Stairs- M C Escher

9.1.06



dono das ideias escuras,
profundas, como as cantigas tristes,
nao sei por quem ainda procuras
quando só tu em ti existes.

moldas palavras que choram
vidas que podias ter sido
esperando em sonhos que foram
memórias de um tempo perdido.

com este punhal te trago à vida,
enterrando-to bem fundo no peito.
que pelo rasgar da carne te doa
e pela dor te levantes do leito.

r.

4.1.06

Pergunto-me muitas vezes se não haverá uma lei da publicidade que possa proibir a proliferação de anúncios a conteúdos para telemoveis na televisão portuguesa. Como espectador sinto-me insultado pela sua maioria. Até na noite de Natal. Nem na quadra natalícia quando são abundantes os programas do tipo natal dos hospitais e os estímulos para que sejamos melhores pessoas a ética televisiva se sobrepôs por momentos ao dinheiro da publicidade. Parece que é um problema só possivel de resolver com um boicote por parte dos nossos telemoveis... apesar de ainda me custar a crer que haja pessoas que de facto compram o que esse tipo de anúncios tem para nos vender.

3.1.06

gosto de palavras. gosto do som das palavras. gosto do som da palavra Gostar.

gosto também de escrever sempre em minusculas e decidir qual a palavra mais importante. gosto de dar mais importância às palavras que são mais importantes.



e serias de aromas leves e suaves,
de olhar calmo na preguiça das manhãs.
meiga e doce

puderas tu ser,
assim,
sem espinhos


imagem_ Heroische Rosen-1938 , Paul Klee

14.12.05

experiencia

experiencia

5.12.05

Sempre me disse que ali moraram antepassados meus que morreram.
Para mim nunca foram vivos, sempre os conheci mortos. sei-o porque me era indiferente ouvi-la gastar-lhes os nomes, quando com o esforço de todas as rugas da face pálida e gasta se lembrava de nomes de homens e de mulheres, e da professora nova que vinha de bicicleta por entre os pinhais escuros e húmidos que lhe lembraram que tinha sido em Novembro desse ano que nascera o seu primeiro filho, que tinha já morrido num ano há muitos séculos atrás mas de que ainda se lembrava como se fosse ontem. ja te disse que és igual ao teu pai? perguntava de tempos a tempos, enquanto falava das pessoas que ali morreram. e das pessoas que ali morreram antes das pessoas que ali morreram. e das pessoas que ali morreram antes das pessoas que ali morreram antes das pessoas que ali morreram.
O negro das pingas lembrava o escuro da noite.
Ela, muito velha, pintada de exageros como quem de engano engana a morte, morreu.

26.11.05

pausa para reflexão

dizem que ando irritado. nao. ando confuso e a precisar de respirar.

13.11.05

e quando os corpos mornos e a roupa quente se gostam, o inverno chega em pingas geladas, perdidas no vento sem norte

10.11.05

pinto-te em cores que só eu sei.
desenho-te em palavras num cenário que é só meu.

as pessoas inertes e sem objectivos de vida irritam-me

5.11.05

Nunca, por mais que me cruze com as pessoas a lerem os meus livros nas paragens de autocarro, nunca, por mais que veja universitários a caminharem despreocupados com os meus livros debaixo do braço, nunca, por mais que traduzam os meus livros e haja pessoas a lê-los em línguas cheias de consoantes, nunca hei-de ficar indiferente no momento em que alguém esteja a ler um livro meu perto de mim. Nas palavras que escrevi permanece aquilo que pensei durante um momento, ou durante um ano, ou durante a vida toda. Nas palavras que escrevi permanece aquilo que fui, aquilo que não sei se ainda sou. Quando alguém lê um livro meu perto de mim, sou uma criança envergonhada.

José Luís Peixoto, Uma Casa na Escuridão

31.10.05

não me posso esquecer de dar uma olhadela no que estes senhores andaram a fazer e de saber do que fala este senhor no seu Advertisements for Architecture

25.10.05

gripe

a prova provada de que informção não é o mesmo do que conhecimento é eu ainda não ter percebido se as aves de facto tossem

24.10.05

Fechei os olhos para ver. Depois do susto, estava triste. Tinha os olhos grandes de criança cheios de um lago calmo, tinha uma ruga na pele branca da testa, tinha lábios finos a tremerem muito brandamente. Os meus olhos dentro de mim foram serenos a olhá-la. Pela primeira vez, como se me desse a mão, os seus olhos foram ainda mais doces e os seus lábios finos e belos repousaram num sorriso.

José Luís Peixoto, Uma Casa na Escuridão