23.4.06

fecho os olhos e anulo-me.
penso noutras pessoas e noutros lugares.
penso no calor dos raios de sol de fim de tarde, que lhes aquecem de um laranja aveludado os traços das suas faces calmas. penso nos toques. penso nos momentos em que se cruzaram e nos que se voltarão a cruzar. penso nos cheiros que os rodeiam trazidos pela brisa leve e fresca ao passar nos assobios das folhagens coloridas de primavera. penso no que pensarão e no que quererão dizer. sinto-os como se fosse eu. digo-os

22.4.06

deixaste que uma lágrima te acalmasse as curvas rosadas da face e sorriste como uma criança muito pequena.

tinha passado um mês desde a útlima vez que nos tinhamos encontrado.
trouxe o bule de chá e pousei-o no meio do chão da sala. os primeiros aromas traziam à lembrança estórias antigas que iamos partilhando a cada pousar de chávena. nada tinha mudado e foi bom.
os gestos eram os mesmos gestos que nos conhecíamos. os olhares eram os mesmos olhares que nos conhecíamos. abraçámo-nos nas palavras afectuosas da saudade e na felicidade do reencontro.
Palavreámos até tarde nessa noite

22.3.06

I lock the door and lock my head
And dream of butterflies instead


Porque há músicas que só ouvimos deitados de olhos fechados.
para voltar a acordar ao fim de algumas horas, uma vida inteira depois

13.3.06

regresso a mim nos fragmentos de outros que fui. Acalmo e recomeço.
respiro de novo o que me rodeia, arrumo o saco e recomeço.
ainda não sou eu, uma vez mais encho os pulmões e recomeço.
tento de novo. começo a fazer sentido outra vez.

às vezes gostava de ser mais assim, sem sonhos, sem desassossegos, morando todos os dias numa rotina superior a mim. mas quero ser coisas que nao tenho, quero ver coisas que nao vi, quero falar numa lingua que nao sei, quero saborear coisas das quais nem sei o nome. Todos somos um pouco egoístas.

25.2.06

tinha uma meia meia rota
pedi que ma cosessem
coseram-me a meia ao pé
e o pé à perna solta

tinha uma perna meia solta
pedi que ma juntassem
juntaram-me a perna ao tronco
e o tronco à cabeça louca

tinha uma cabeça meia louca
pedi que ma curassem
ataram-me a cabeça aos pés
e os pés às meias rotas

os buracos das duas meias
eram mesmo por entre os dedos
entravam o frio e o mau tempo
e gelavam-me as idéias

Fui comprar linha e dedal
a pé de perna junto ao tronco
cosi eu as duas meias
e tratei do meu próprio mal

16.2.06

menina triste de olhos secos
que nada mais podem chorar
quem te levou todas as lágrimas
e sorrisos de tanto gostar

29.1.06

Estas palavras são puramente introspectivas.
Não é minha intenção enviar mensagens ou recados.

24.1.06

desassossego porque vens sempre que espreito por mim
e procuras nas palavras de outros maneira tua de ser assim

escondo-me.

Arctic Monkeys


O melhor da brit pop ainda está pra vir. Tudo a (re)começar com estes senhores
O primeiro álbum está para sair, chama-se "Whatever People Say I Am, That's What I'm Not" e já está disponível por aí noutros locais menos legais

16.1.06

há coisas que me recuso a discutir. Por exemplo: a diferença entre homens e mulheres. São seres diferentes e cada um tem qualidades e defeitos. Em ambos os lados há seres humanos inteligentes que vale a pena conhecer e se alguém argumenta o contrario é porque ainda não teve essa felicidade.

14.1.06

Argumento Hollywoodesco



o nosso psiquiatra suicida-se imediatamente após a nossa hora de conversa.
Por peso na consciência, entramos numa viagem introspectiva por todas as nossas sessões e por toda a nossa vida. Vasculhamos a vida do psiquiatra, procuramos um elo de ligação entre a nossa e a dele, algo que explicasse o motivo. A procura torna-se obssessiva, há perseguições, partidas do nosso cérebro a nós próprios, realidades alternativas, tudo muito ao estilo vanilla sky, com côres e horizontes distorcidos em tons de sépia.


imagem_ House of Stairs- M C Escher

9.1.06



dono das ideias escuras,
profundas, como as cantigas tristes,
nao sei por quem ainda procuras
quando só tu em ti existes.

moldas palavras que choram
vidas que podias ter sido
esperando em sonhos que foram
memórias de um tempo perdido.

com este punhal te trago à vida,
enterrando-to bem fundo no peito.
que pelo rasgar da carne te doa
e pela dor te levantes do leito.

r.

4.1.06

Pergunto-me muitas vezes se não haverá uma lei da publicidade que possa proibir a proliferação de anúncios a conteúdos para telemoveis na televisão portuguesa. Como espectador sinto-me insultado pela sua maioria. Até na noite de Natal. Nem na quadra natalícia quando são abundantes os programas do tipo natal dos hospitais e os estímulos para que sejamos melhores pessoas a ética televisiva se sobrepôs por momentos ao dinheiro da publicidade. Parece que é um problema só possivel de resolver com um boicote por parte dos nossos telemoveis... apesar de ainda me custar a crer que haja pessoas que de facto compram o que esse tipo de anúncios tem para nos vender.

3.1.06

gosto de palavras. gosto do som das palavras. gosto do som da palavra Gostar.

gosto também de escrever sempre em minusculas e decidir qual a palavra mais importante. gosto de dar mais importância às palavras que são mais importantes.



e serias de aromas leves e suaves,
de olhar calmo na preguiça das manhãs.
meiga e doce

puderas tu ser,
assim,
sem espinhos


imagem_ Heroische Rosen-1938 , Paul Klee

14.12.05

experiencia

experiencia

5.12.05

Sempre me disse que ali moraram antepassados meus que morreram.
Para mim nunca foram vivos, sempre os conheci mortos. sei-o porque me era indiferente ouvi-la gastar-lhes os nomes, quando com o esforço de todas as rugas da face pálida e gasta se lembrava de nomes de homens e de mulheres, e da professora nova que vinha de bicicleta por entre os pinhais escuros e húmidos que lhe lembraram que tinha sido em Novembro desse ano que nascera o seu primeiro filho, que tinha já morrido num ano há muitos séculos atrás mas de que ainda se lembrava como se fosse ontem. ja te disse que és igual ao teu pai? perguntava de tempos a tempos, enquanto falava das pessoas que ali morreram. e das pessoas que ali morreram antes das pessoas que ali morreram. e das pessoas que ali morreram antes das pessoas que ali morreram antes das pessoas que ali morreram.
O negro das pingas lembrava o escuro da noite.
Ela, muito velha, pintada de exageros como quem de engano engana a morte, morreu.

26.11.05

pausa para reflexão

dizem que ando irritado. nao. ando confuso e a precisar de respirar.

13.11.05

e quando os corpos mornos e a roupa quente se gostam, o inverno chega em pingas geladas, perdidas no vento sem norte

10.11.05

pinto-te em cores que só eu sei.
desenho-te em palavras num cenário que é só meu.

as pessoas inertes e sem objectivos de vida irritam-me

5.11.05

Nunca, por mais que me cruze com as pessoas a lerem os meus livros nas paragens de autocarro, nunca, por mais que veja universitários a caminharem despreocupados com os meus livros debaixo do braço, nunca, por mais que traduzam os meus livros e haja pessoas a lê-los em línguas cheias de consoantes, nunca hei-de ficar indiferente no momento em que alguém esteja a ler um livro meu perto de mim. Nas palavras que escrevi permanece aquilo que pensei durante um momento, ou durante um ano, ou durante a vida toda. Nas palavras que escrevi permanece aquilo que fui, aquilo que não sei se ainda sou. Quando alguém lê um livro meu perto de mim, sou uma criança envergonhada.

José Luís Peixoto, Uma Casa na Escuridão

31.10.05

não me posso esquecer de dar uma olhadela no que estes senhores andaram a fazer e de saber do que fala este senhor no seu Advertisements for Architecture

25.10.05

gripe

a prova provada de que informção não é o mesmo do que conhecimento é eu ainda não ter percebido se as aves de facto tossem

24.10.05

Fechei os olhos para ver. Depois do susto, estava triste. Tinha os olhos grandes de criança cheios de um lago calmo, tinha uma ruga na pele branca da testa, tinha lábios finos a tremerem muito brandamente. Os meus olhos dentro de mim foram serenos a olhá-la. Pela primeira vez, como se me desse a mão, os seus olhos foram ainda mais doces e os seus lábios finos e belos repousaram num sorriso.

José Luís Peixoto, Uma Casa na Escuridão

Menina do anel de lua e estrela
Raios de sol no céu da cidade
Brilho da lua oh oh oh, noite é bem tarde
Penso em você, fico com saudade

Manhã chegando
Luzes morrendo, nesse espelho
Que é nossa cidade
Quem é você, qual o seu nome
Conta pra mim, diz como eu te encontro
Mas deixa o destino, deixe ao acaso
Quem sabe eu te encontro
De noite no Baixo
Brilho da lua oh oh oh, noite é bem tarde
Penso em você, fico com saudade

Caetano Veloso, Lua e Estrela

16.10.05


nunca conseguira perceber o que murmurava aquela voz. o som da ladaínha ecoava vezes sem conta, devolvendo o eco das paredes que ecoavam também de volta, como se a conhecessem já de cor, tantas foram as vezes que o fizeram.

arde pavio
arde-te só
arde-me
vazio

palavra sem ser
noite sem lua
alma vazia,
a tua.

arde pavio
arde-te só
arde-me
vazio

arde pavio
arde-te só
arde-me
vazio

arde pavio
arde-te só
arde-nos
Vazios.

15.10.05

,

considerem esta frase como uma pequena virgula, que separa sem separar o tempo que passou e o que está por passar